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janeiro 31, 2005

31 de Janeiro

Um beijo sem boca

E para terminar, é precisamente a boca que nos vai servir para falar do paraíso.

A boca que é um polo de tensão nervosa - cerrar os dentes, morder a língua, cigarros - mas também de escape gratificante, indulgência com os prazeres sensuais. A boca que acolhe os alimentos da sobrevivência e resguarda os dentes, derradeiros despojos.

A boca. Lugar de três paraísos:
- O paraíso religioso da comunhão com o corpo de Deus, através da hóstia consagrada;
- O paraíso infantil da comunhão com o corpo da Mãe, através da amamentação; ou das delícias da descoberta dos primeiros sabores;
- O paraíso sexual da comunhão com o corpo de alguém, através do beijo, para dar só um exemplo.

O paraíso perdido é, então, bem feitas as contas, o da coincidência física e espiritual com o corpo, um corpo, mas que corpo de quem?

A resposta seria infância, religião, prazer, família, memória, e todas as outras palavras que só a muito custo, ou talvez nem mesmo a muito custo, aqui se poderiam acrescentar.

Isso falta. Falta a resposta. O que há, então, é a falta. Chama-se-lhe vida e disso se vive. Mais ou menos.

Alexandre Melo (1959)
Aventuras no Mundo da Arte

Publicado por sofiacouvreur às janeiro 31, 2005 09:31 AM